Novos mistérios cercam a mesa da Última Ceia em 2015

   O livro atribui mais mensagens subliminares e informações secretas à obra-prima de Leonardo da Vinci



   Doze apóstolos sentados à mesa com Jesus Cristo. A cena é conhecida universalmente e já foi retratada em diversos afrescos, mas a representação mais famosa de “A última ceia” veio em 1497 e leva a marca de Leonardo da Vinci. O gênio renascentista pontuou sua obra-prima com detalhes que, até hoje, alimentam teorias sobre supostas mensagens subliminares.
Um livro lançado recentemente no Brasil, best-seller em 43 países, levanta novas controvérsias em relação às supostas intenções de Da Vinci. Para o jornalista e pesquisador espanhol Javier Sierra, autor de “A ceia secreta”, o quadro é uma agressão explícita à Igreja Católica, comandada à época pelo Papa Alexandre VI.
— Da Vinci rompe com a Igreja e abraça simbolismos. O afresco não é puramente decorativo. Há um propósito político — defende Sierra. — O artista condena o Pontificado de Alexandre VI, que agia como um líder militar, e não espiritual.
   O artista faz eco à visão do Duque de Milão, Ludovico Sforza, que encomendou a obra para ser a peça central do mausoléu de sua família. Sforza estava prestes a entrar em guerra com o Papa, que pretendia expandir seus domínios até a cidade. Para o nobre, a obra-prima de Da Vinci deveria atacar o líder da Igreja, que subornou os cardeais para conquistar o Pontificado.
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   Tradicionalmente, a ceia é retratada como um momento em que Jesus consagra a Eucaristia. Da Vinci, no entanto, esquivou-se de qualquer visão doutrinal. O cálice do Santo Graal, um símbolo da aliança entre Deus e os homens, não está sobre a mesa. Não existem auréolas, que representavam os apóstolos como santos.

    A inspiração do artista foi um versículo do livro de João, na Bíblia Sagrada, quando Cristo anuncia: “um de vós me trairá”. Judas seria a resposta óbvia. Mas não para Da Vinci.
— No contexto religioso, Judas é realmente o traidor. No entanto, como esta é uma obra política, a resposta é diferente — ressalta Sierra. — A única arma que aparece na cena, uma adaga, está na mão de Pedro. Ele, como fundador da Igreja, na época, simboliza o Papa. Então, para Da Vinci, o Pontífice é o verdadeiro traidor de Cristo.
    O afresco de Da Vinci foi o primeiro a dispor todos os personagens lado a lado. Até então, configurações diferentes da mesa deixavam alguns discípulos de costas para o espectador.
A visão de todos os personagens contribuiu para que o artista imprimisse suas convicções particulares, além dos simbolismos que agradavam Sforza. Algumas destas explicações, segundo Sierra, estariam entre as mais de oito mil páginas de relatos escritos pelo artista e ainda preservados.
Discípulos de costas
   Ao contrário dos outros discípulos, três apóstolos à esquerda de Jesus estão de costas para Ele, como se estivessem confabulando. O trio é, originalmente, formado por Mateus, Judas Tadeu e Simão. Da Vinci, no entanto, muda os personagens.


     Ele põe seu próprio rosto no lugar de Judas Tadeu, o segundo a partir do fim da mesa. Da Vinci aparece quase identicamente em seu autorretrato, pintado cerca de três anos depois.
— A razão para Da Vinci dar seu rosto a São Judas Tadeu é um mistério não explicado em seus esboços e notas — admite Sierra. — Uma hipótese é de que Judas Tadeu sempre foi o santo das causas perdidas ou difíceis, aquele a quem recorremos quanto tudo já falhou. Da Vinci tinha esta sensação sobre o seu trabalho. Todos o procuravam para resolver problemas. Sua fama de inventor capaz de resolver qualquer questão o acompanhou até a morte. Então, quem sabe?
À direita de Da Vinci, em vez de Mateus, estaria Marsílio Ficino, amigo íntimo do artista e tradutor dos textos do filósofo grego Platão para o latim.
O artista e Ficino olham atentamente para o homem na extremidade da mesa, que parece conversar com a dupla. Na interpretação bíblica, seria o apóstolo Simão. Da Vinci, no entanto, retratou-o como Platão. O rosto do filósofo, no afresco, é semelhante ao visto em seu busto, exibido em Florença.
— O grande debate do Renascimento é que Jesus repetiu as ideias de Platão, que nasceu quatro séculos antes — argumenta Sierra. — O filósofo grego defendia que a alma humana é eterna, sobrevivente à morte física, e que o mais importante era alcançar o mundo após a morte. O conceito de um mundo superior imaterial foi a base dos ensinamentos de Jesus. Para ambos, o que é material nos oprime com os pecados. As normas éticas são gêmeas.
O escritor espanhol arquitetou suas teorias após três anos de investigações em Milão, onde entrevistou os restauradores da obra, que estendeu-se entre 1977 e 1997.
Figuras femininas
Antes dele, em 2003, Dan Brown irritou a Igreja com o livro “O Código da Vinci”, em que conta que, ao lado direito de Jesus, está Maria Madalena. Segundo o escritor, eles teriam se casado e tido filhos.
     O Vaticano chegou a encarregar um arcebispo italiano para desmascarar as teorias levantadas pelo best-seller, que a Igreja definiu como “um saco cheio de mentiras” e pediu para que os cristãos não o comprassem ou lessem.
Sierra também acredita que a figura à direita de Jesus é feminina. Trata-se, porém, de João, o apóstolo puro. Ele teria sido retratado desta forma porque, segundo os renascentistas, a pureza está ligada à forma de uma mulher.
As novas teorias enfrentam resistências entre especialistas em artes plásticas..
— É muito pouco provável que Da Vinci se curve ao Duque de Milão para fazer alusões críticas ao Papa. Parece um pouco inverossímil, vendo o conjunto da obra — opina Luiz Marques, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp e especialista em arte renascentista. — Naquele momento, ele estava desinteressado por pintura, chegou a dizer que tinha nojo de pincéis
 
    De acordo com Marques, se a intenção de Sforza fosse difundir críticas no afresco, ele seria exposto em um local mais acessível ao público. O local em que está “A Última Ceia” foi convertido, depois de reformas, no refeitório da Igreja Santa Maria delle Grazie.
A ausência de auréolas também não impressiona o professor:
— Há uma tendência nos séculos XV e XVI de representar entidades da iconografia cristã sem certos atributos — explica. — O Renascimento aproxima o sagrado do mundo laico. As figuras são mais humanizadas. Michelangelo, por exemplo, retrata anjos sem asas. Não é uma característica exclusiva de Da Vinci.
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